• Alexandre Mendes

Resenha do livro Vertigens de Junho, por Bruno Cava

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Reunimos neste post as três resenhas escritas por Bruno Cava sobre o livro Vertigens de Junho: os levantes de 2013 e a insistência de uma nova percepção (Autografia, 2018), publicadas na revista Estado da Arte, do jornal Estadão.


O livro foi lançado em 2018 reunindo textos escritos desde o início do levante de Junho. Além de resgatar esse conjunto de intervenções, realizadas no calor do momento, a obra também busca uma compreensão das linhas de possibilidade deixadas pelo acontecimento na atualidade, recusando a "morte teórica" determinada por algumas reflexões empreendidas nos últimos anos.





Junho fora do lugar (Parte 01)


A lógica do acontecimento

"A escolha para o título do livro não poderia ter sido mais feliz: Vertigens de junho. O que aconteceu em junho de 2013 não foram jornadas, termo que remete à Paris insurrecional e proletária de junho de 1848. Tampouco caberia falar em movimento de Junho, como se houvesse uma organização subjacente aos protestos, ainda que difusa ou de novo tipo. Junho foi um acontecimento, que, diversamente de uma estrutura formal ou substrato material, se repete — e só poderia se repetir — de maneira diferente a cada vez, sob a pena da desativação de sua capacidade de continuar gerando efeitos. Um acontecimento não prolonga ao longo do tempo um eixo de causas eficientes cujo traçado poderia ser percorrido ao passo de suas consequências práticas: isto levou àquilo, o que conduziu aqueloutro, o que, por sua vez, repercutiu naquilo, e aquilo nisto e assim por diante. Não é essa a configuração lógica do acontecimento.

Mesmo que as estruturas formais e os substratos materiais nos quais um acontecimento é inicialmente subsistente venham a desaparecer, mesmo que elas sejam destruídas ou desvirtuadas, mesmo que esse acontecimento venha a deixar de existir, ele pode insistir em novos e insperados suportes de fatos — por outros meios, noutros termos. Sem uma linha dura de causalidade direta entre uma origem e suas ramificações e consequências, o acontecimento é repetido no modo intensivo, que Alexandre chama de terreno flutuante ou nuvem de virtualidades. Ao se reiterar diferentemente, Junho desenha uma geometria temporal fragmentária que só é inteligível na forma de constelações. No lugar de um traçado único, que vai do A ao ponto B no tempo e no espaço, estão em questão traços múltiplos e centrífugos. Insistir, na acepção em jogo no livro, tem um sentido filosófico preciso e nos leva a recolocar a questão do acontecer. Quais são os meandros do acontecimento e de suas reaparições, que se dão noutros termos e por outros meios?"

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Junho fora do lugar (Parte 02)


Narrativa contra a Estética

"Noutro capítulo do livro, Alexandre Mendes descreve um panelaço na favela vizinha ao seu apartamento, então no bairro de Copacabana. A data é março de 2015. Depois da reeleição de Dilma, por uma pequena margem de votos, no segundo turno, os panelaços e manifestações de rua assinalavam que o dissenso continuava, inaugurando outro ciclo de protestos. Cada pronunciamento televisionado da presidente passou a ser recepcionado por um rechaço geral e ruidoso, que se exprimia por gritos e bateção de panelas. A partir daquele mês, as ruas também foram novamente ocupadas pela maré de indignação. Se, em Junho, as manifestações se concentravam nas áreas centrais do Rio de Janeiro, a nova temporada de mobilizações passou a tomar as ruas de Copacabana, cuja praia, bem servida de linhas de transporte coletivo, é um importante foco de reunião democrática da população aos domingos.

O autor, ele mesmo postado na fronteira entre dois mundos, surpreendeu-se com o vigor e a alegria do protesto na favela e contra Dilma. A surpresa decorria, em parte, do bombardeio midiático movido pelas fileiras do governo contra a população que exprimia seu descontentamento, com real capacidade de impor uma narrativa falsa. Como poderia ser que, na janela, ele presenciava a favela em agitação política, enquanto nas redes praticamente todos os seus contatos se manifestavam atribuindo os protestos à classe média coxinha? A tendência do progressismo organizado em falsificar a realidade estampada diante dos olhos de todos, nesse período, parecia ser internacional. Enquanto Hillary Clinton tachava metade da população dos Estados Unidos de balaio de deploráveis (basket of deplorables), no Brasil, o Partido dos Trabalhadores, com suas linhas oficiais e auxiliares, pagas ou ideologicamente gratuitas, orquestrou a grande operação reductio ad coxinha nas redes sociais."

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Junho fora do lugar (Parte 03)


Onde a luta é forte, o partido é fraco

"!'Vertigens de junho' transpira de uma obstinação analítica em se orientar em meio ao nevoeiro com todos os sentidos disponíveis, numa espécie de empirismo radical. Deixar para trás a morada segura das ferramentas sociológicas, tão bem sopesadas e eficazes para reconduzir o movimento ao estático das categorias, tem como custo imediato o aumento da tensão do pensamento. É certo, contudo, que o terreno social do lulismo não era um céu azul, a seguir rasgado pelo raio junhista, como provocativamente sugere André Singer (em “O lulismo em crise”); tampouco uma noite tão cinzenta que nada pode ser diferenciado, como nos diagnósticos da era da indeterminação (Oliveira) e seu diagnóstico que resume os arranjos a massarocas de coalizões, ideologias e coligações.

Como resgatar a força de classe pela via materialista das lutas, e através das lutas pesquisar e elucidar o fundo social de inventividade de que as jornadas de junho de 2013 são signos soltos? Alexandre está consciente do risco que ronda a tentativa de inverter a colocação do problema. Pois um único passo em falso sobre o platô intensivo pode rapidamente conduzir ao desrecalque despolitizador das interpretações sobre um suposto lado brilhante ou criativo das novas classes médias/trabalhadoras que se formavam. A inclusão durante o governo Lula não deixa de ser uma inclusão no trabalho, na viração, e envolve um catatau de regulações e ajustes biopolíticos que extraem valor do tempo colocado para funcionar na forma-empresa, no empreendedorismo de si, na subjetividade carregada de endividamento subjetivo. Eis aí, possivelmente, o maior desafio à tentativa de instalar um ponto de vista no interior das bacias de trabalho vivo: como não escorregar da análise das potências em processo de autonomização para a apologia da liberdade de mercado do sujeito empreendedor? Nisso, o livro fornece pistas e uma trajetória autoral inscrita em lutas históricas no Brasil".

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Bruno Cava é ensaísta e professor de cursos livres de Filosofia. Autor de vários livros, entre eles “A multidão foi ao deserto” (AnnaBlume, 2013) e “Enigma do disforme” (Mauad, 2018). É graduado em Engenharia (ITA) e Direito (UERJ), mestre em Direito na linha de pesquisa Teoria e Filosofia do Direito (UERJ).


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