• Amanda Antunes

Pensando condições precárias a partir do gênero durante a pandemia – dialogando com Butler

Atualizado: 27 de Jul de 2020


Vamos encarar.

Somos desfeitos uns pelos outros.

E se não o somos, falta algo em nós.

Judith Butler



É notório que, durante a pandemia causada pelo novo coronavírus, os casos de violência de gênero aumentaram significativamente. Com o afrouxamento dos laços sociais externos ao ambiente familiar e a crise econômica decorrente do isolamento, ficou evidente que o marcador de gênero opera como verdadeira ordem classificatória de precarizações.


Nesse sentido, poderíamos fazer referência ao aumento dos casos de violência física contra mulheres, bem como ao número expressivo de 7 milhões de brasileiras que perderam o emprego logo na segunda quinzena de março - incorrendo em uma taxa de desemprego 25% maior do que a verificada entre homens no mesmo período.



Tais informações evidenciam que o marcador do gênero continua a incidir como hierarquizante e indutor de condição precária, tal como nomeia Butler. Interessante apresentar brevemente a diferença entre as noções de precariedade e condição precária para a citada autora.



De forma simplificada, a precariedade habita em todos nós como vulnerabilidade inata de todos os corpos, que estão sempre submetidos ao destino final da morte. Como algo presente em todos os corpos, pode ser lida como um vetor de comunidade, de encontro, que nos coloca em uma relação de alteridade com o outro. Assim, essa vulnerabilidade não se limita à nossa condição de vida marcada pela morte, mas vai além para significar a vulnerabilidade perante o outro, demarcando a ligação entre a nossa possibilidade de vida com o poder que os outros têm sobre essa vivência desde sua forma mais elementar.



Já a condição precária traduz uma situação que é politicamente induzida, que opera por meio de uma distribuição geopolítica diferenciada de vulnerabilidades. Tais localizações são referenciadas a partir de marcadores sociais, tais como o gênero, que importam em maior condição precária.



Se em tempos “normais” as pessoas já sofrem com hierarquizações de vida, em tempos de pandemia, com a morte espreitando de perto todos os corpos, a condição precária de determinadas minorias se mostra de forma ainda mais clara e inegável.



É nesse sentido que endereçamos aqui o marcador de gênero como intensificador de condição precária. Entretanto, não podemos deixar de apontar que outros marcadores também se evidenciaram como indutores de extrema precariedade durante a pandemia, do que exemplificamos a não contabilização das vítimas de covid-19 por raça, sendo publicamente negada informação capaz de direcionar políticas públicas.



Com a massiva perda de vidas no contexto da pandemia, nos vemos habitando abertamente uma zona comum de exposição dos corpos. Contudo, ainda que o vírus nos iguale na condição de corpos expostos à morte, as práticas e os governos nos diferenciam como mais ou menos vulneráveis a partir da gestão das políticas de morte.



É impossível ignorar nesse momento a conexão direta com outra teorização realizada por Butler, que a partir de eventos como o boom do HIV e o atentado de 11 de setembro, apontou a relevância do luto público e o reconhecimento da retirada desse direito de determinadas vidas, excluídas do potencial transformador do luto público.



Nos referimos aqui ao luto público como aquele recebido pela coletividade como uma perda, com reconhecimento, valoração e potencial transformador. É justamente essa visibilidade e legibilidade que é negada àqueles corpos marcados pelas condições precárias.



Embora algumas vidas sejam desde o seu início excluídas do luto público - aquelas vidas seccionadas por marcadores de menor humanidade, como negros, pessoas LGBTI+, mulheres – em tempos de pandemia, vidas que “usualmente” teriam direito ao luto público têm retirado o seu estatuto de vida coletiva.



No contexto da pandemia, vidas normatizadas e socialmente reconhecidas, também perdem seu luto público, o que pode se dar em razão das necessidades sanitárias que não permitem rituais públicos de sepultamento, ou simplesmente pela diluição de uma morte específica no meio de milhares. A perda do luto público expõe de forma ampla a dor do não pertencimento coletivo.



Essa dor teria origem no rompimento de uma cadeia de interdependência entre nós, pois a sua vida acabaria diretamente em você, lhe sendo negada uma relação de alteridade externa que permite que outros sejam também parte da sua vida. Para Butler, ter esse elo com as vidas dos outros retirado consiste em uma enorme violência, uma vez que, como dito, a sua vida não começa em você, mas sim em todos aqueles que lhe antecederam. Da mesma forma, a sua vida não terminaria em você, sendo a sua morte apenas um momento dessa cadeia interdependente de vivências.



O luto público, com o reconhecimento de que a vida se prolonga após a morte de um corpo, retira da morte sua finitude absoluta e a ressignifica como apenas mais um momento que marca a relação dos vivos com aquele que morreu, algo que possui imenso potencial integrativo. Nessa linha, pertenceríamos à uma história da humanidade que nos constituiu até ali e a qual também iremos constituir, entrelaçados numa contínua interdependência.



Nesses termos, todos os corpos importam [matter], não se devendo realizar uma divisão entre vidas vivíveis e matáveis, reconhecidas e não reconhecidas, passíveis de luto público ou não, sem que aqueles que estão no mais alto grau dos privilégios de legibilidade também percam parte de sua vivência, ou a marquem pela dispensabilidade nefasta de determinada vidas.



Induções a partir de políticas públicas estão sempre abertas à agência e, acreditamos, tal como Butler, que a vulnerabilidade pode assumir outro significado a partir do momento em que é reconhecida. A partir desse reconhecimento, poderíamos exercer o poder de reconstituir essa vulnerabilidade.



Utilizamos Butler aqui na tentativa de sensibilizar o leitor para corpos além dos nossos próprios. Butler nos proporciona o entendimento de que o corpo possui sempre uma dimensão invariavelmente pública, sendo realmente um fenômeno social na esfera pública. O meu corpo não é exclusivamente meu, pois ele estava desde o início entregue ao mundo dos outros, carregando a marca da vida social.



Butler oferece, assim, uma via de reconhecimento sobre a responsabilidade e a conexão que temos com outros corpos, o que poderia nos levar a questionar a forma como temos nos relacionado com esse outro.



A perda massiva de vidas durante a pandemia, embora possa ser um momento de esvaziamento de significado, pode também ser um momento para reavaliação do luto público, para reavaliação das políticas de indução de precariedade que cotidianamente já retiram o potencial de significação transformador da morte de determinadas pessoas. Essa perspectiva de um questionamento coletivo possui um potencial revigorante e que por ora permitiremos aqui servir de consolo.

Texto de: Amanda Antunes



Fontes:


BUTLER, Judith. Vidas precárias.

______. Corpos em aliança.

______. Quadros de guerra.


https://revistapegn.globo.com/Negocios/noticia/2020/06/pandemia-faz-sete-milhoes-de-mulheres-deixarem-o-mercado-de-trabalho-na-ultima-quinzena-de-marco.html (acesso em 30 jun. 2020)


https:// forumseguranca.org.br / wp-content / uploads/2018/05/ violencia- domestica- covid-19-v3.pdf (acesso em 30 jun. 2020)


https:// oglobo.globo.com/ sociedade/maioria-dos-estados-nao-tem-informacao- sobre-raca-das -vitimas-de-covid-19- 24490499 (acesso em 30 jun. 2020)


Os conceitos aqui apresentados e as reflexões derivadas são fruto das excelentes aulas ministradas pela Professora Carla Rodrigues no curso As Pensadoras, bem como pelo Professor Jacob Biziak no curso sobre a obra de Judith Butler.

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