• Fernando Fontoura

ALTHUSSER E A BUSCA DE UMA FILOSOFIA PARA O MARXISMO

Atualizado: 25 de Out de 2020

Luiz Fernando Fontoura Lira


Hoje, dia 22 de outubro de 2020, completam 30 anos do falecimento do filósofo franco-argelino Louis Althusser (1918-1990). Para não deixar passar em branco esta data, decidi escrever um pequeno texto tratando da contribuição de Althusser para a filosofia no campo marxista.


Dentro e fora do marxismo, as obras de Louis Althusser (1918-1990) publicadas durante os anos de 1960 e 1970 foram vistas como uma intervenção teórica bastante provocativa e cercada de polêmicas. O rigor conceitual de seus textos e sua ousadia de ir além das leituras ortodoxas exigiram a constituição de um leitor que também estivesse disposto a percorrer o caminho que esse pensamento exigia. Como filósofo comunista, Althusser buscou pensar para além da linha do pensamento oficial do Partido Comunista Francês (PCF), e como filósofo marxista, também buscou pensar além do próprio Marx.


Determinado a intervir politicamente na conjuntura histórica do período do pós-guerra, Althusser tentou combater a influência teórico-política do stalinismo a partir do próprio PCF, e da forma como melhor soube fazê-lo: como filósofo, fazendo da teoria uma “prática teórica”. Sobre essa questão, nos diálogos mantidos com a filósofa mexicana Fernanda Navarro entre os anos de 1984 e 1986 – publicados em 1988 na obra intitulada Filosofía y Marxismo –, Althusser faz a seguinte declaração sobre sua época no PCF:

"[...] não tive possibilidade de escolher: se tivesse intervindo publicamente na política do partido – que se negava a publicar meus textos filosóficos sobre Marx por considerá-los heréticos e perigosos – teria me visto marginalizado e sem qualquer influência. Portanto, restava-me somente uma via de intervenção: a teórica, por meio da filosofia." (ALTHUSSER, 1988, p. 20, tradução nossa).

Desse modo, Althusser traçou como objetivo o desenvolvimento de uma filosofia adequada ao marxismo, algo que, em sua concepção, Marx deixou de realizar não por desinteresse, mas sim porque tal tarefa era impossível. De fato, foi Engels, em Anti-Dühring, e não Marx, quem chamou de “materialismo dialético” o que ele acreditava ser a filosofia que Marx jamais conseguiria escrever. O texto de Engels foi aprovado por Marx imediatamente e, desta forma, o “materialismo dialético” acabou tornando-se a única e “verdadeira” filosofia marxista para as futuras gerações de revolucionários. (ALTHUSSER, 2002, p. 25-26). Assim, as leis universais e eternas da dialética que regiam o curso da história foram enunciadas. Em uma espécie de conhecimento absoluto, pronto para ser aplicado de forma acrítica a qualquer aspecto da cultura humana, o “materialismo dialético” permitia a compreensão de toda “realidade”, seja ela socioeconômica, política, ideológica, e até mesmo científica. E assim, em nome do marxismo, e sob a custódia de “toda filosofia soviética oficial”, é que ocorre a “morte do pensamento marxista”. (Idem, p. 27-28).


Nas conversas que manteve com Fernanda Navarro, Althusser não hesitou em caracterizar o materialismo dialético como uma “monstruosidade filosófica” (ALTHUSSER, 1988, p. 22). Isso porque, na sua visão, foi o “materialismo dialético” que proporcionou uma justificativa plausível à estratégia política do stalinismo, servindo-o de garantia teórica, por ser considerada uma posição filosófica do marxismo. A partir dessa rejeição a proclamada “filosofia marxista oficial”, foi que Althusser empreendeu a tarefa de buscar uma filosofia que melhor correspondesse ao que Marx desenvolveu em O capital. Uma filosofia que explicasse os conceitos utilizados nessa obra, e que estivesse à altura do que, na concepção de Althusser, fora a principal contribuição de Marx para a teoria social: a análise científica da origem, do funcionamento e da reprodução da sociabilidade capitalista.


Devido à militância de Althusser dentro do PCF, o trabalho que ele se propôs a desenvolver não seria fácil, por isso, “[...] à maneira de Spinoza que, para criticar a filosofia idealista de Descartes e de filósofos escolásticos ‘partia do mesmo Deus’” (Idem, p. 23), decidiu avançar de forma camuflada. Porém, diferentemente do filósofo holandês, o ponto de partida de Althusser não foi Deus, mas sim o próprio Marx que, dentro do partido, era como se fosse um, devido ao “[...] seu caráter de pai pensante, intocável e sagrado.” (Idem, p. 24).


Embora o partido desconfiasse da postura teórico-política de Althusser, chegando ao ponto de monitorá-lo, sua estratégia lhe permitiu evitar suspeitas e, dessa forma, ele acabou conseguindo dar continuidade ao seu projeto.


A dimensão do desafio que Althusser enfrentou resultou em uma de suas teses mais provocativas, e também lhe permitiu esclarecer um aparente paradoxo existente na produção teórica de Marx, qual seja: Marx, filósofo de formação, se recusava a escrever uma filosofia. E foi justamente por não produzir uma filosofia consistente com seu trabalho científico, que Marx “[...] praticou a filosofia que nunca escreveu, ao escrever O capital, sua obra científica, crítica e política.” (Idem, p. 29, grifo do autor). Marx fez uso da filosofia hegeliana para sustentar a singularidade de sua descoberta que, na concepção althusseriana, é de natureza científica e não filosófica, uma vez que o cerne da contribuição do marxismo não é a fundação de uma nova filosofia, mas sim de uma nova ciência: o “materialismo histórico”. Então, o que Marx teria produzido não seria bem uma filosofia “marxista”, isto é, um sistema filosófico fechado e coerente, mas sim uma “não-filosofia”; ou melhor, uma prática filosófica, rompendo com o que tradicionalmente se entende por filosofia.


No entanto, numa espécie de autocrítica, em uma das respostas dada por Althusser quando indagado por Fernanda Navarro sobre a tese do materialismo aleatório, ele reconheceu que Marx nunca havia se libertado totalmente de Hegel. Para Althusser, a famosa “ruptura epistemológica” com a “problemática” hegeliana, que ele acreditava ter percebido no trabalho de Marx, não poderia representar um corte radical com o desenvolvimento teórico do autor de O capital, mas apenas uma tendência. Pela importância dessa temática para o estudo do althusserianismo, traduzimos e transcrevemos, na íntegra, a pergunta formulada por Navarro e a resposta de Althusser:


"[Fernanda Navarro] Poderia nos falar sobre Demócrito e os mundos de Epicuro para entender melhor sua proposta do materialismo aleatório?

[Althusser] Sim, mas primeiro gostaria de dizer qual foi o motivo da minha reflexão nos últimos anos, precisamente sobre a filosofia marxista.

Na verdade, pensei que é muito difícil falar de uma filosofia marxista, da mesma forma que seria difícil falar sobre uma filosofia matemática ou física, se considerarmos que o essencial da descoberta de Marx é de caráter científico: tendo trazido à luz o modo de funcionamento do regime capitalista.

Para isso, Marx contou com uma filosofia – a de Hegel – que podemos considerar que não era a que melhor correspondia ao seu objetivo ... e continuar pensando. De qualquer forma, não podem ser extrapoladas para a filosofia suas descobertas científicas. Podemos pensar que ele não professou de fato a filosofia que está presente em sua investigação. É o que tentamos fazer quando tentamos dar a Marx uma filosofia para permitir sua inteligência, a de O Capital, a de seu pensamento econômico, político e histórico.

Neste ponto acho que, de alguma forma, erramos o alvo, tanto que não demos a Marx a filosofia que melhor se adequava a sua obra. Demos a ele uma filosofia dominada pelo “ar do tempo”, de inspiração bachelardiana e estruturalista que, embora dê conta de uma série de aspectos do pensamento de Marx, não acho que pode ser chamada de filosofia marxista. Objetivamente, essa filosofia permitiu uma compreensão coerente do pensamento de Marx, mas há muitos textos dele que a contradizem, para podermos considerá-la sua filosofia.

Por outro lado, como resultado das investigações mais recentes, como as publicadas por Bidet, em seu excelente livro Que faire du Capital?, podemos reconhecer que, efetivamente, Marx nunca se libertou totalmente de Hegel, embora tenha se mudado para outro terreno, o científico, no qual fundou o materialismo histórico." (ALTHUSSER, 1988, p. 26-27, grifo do autor, tradução nossa)

Como podemos observar da passagem acima citada, embora Althusser reconhecesse que uma filosofia de “inspiração bacherladiana e estruturalista” permitisse compreender parte do pensamento de Marx, ele alertava que diversos textos de Marx acabavam contradizendo esse tipo de filosofia. Por isso, na concepção de Althusser, essa filosofia não poderia ser considerada a “verdadeira” filosofia marxista.


Apenas em seus últimos escritos da década de 1980, até sua morte em 22 de outubro de 1990, onde Althusser – retomando sua antiga tese de que o que define a filosofia é sua “posição” no “campo de batalha” – parece ter alcançado, finalmente, seu objetivo inicial. Empenhado na tarefa de buscar ao longo da história da filosofia posições que lhe permitissem dar conta dos conceitos que Marx pensava, e da maneira particular como os pensava, Althusser encontrou não uma filosofia marxista, entendida como um sistema filosófico fechado e articulado com um todo, mas sim uma filosofia para o marxismo.


Em seus últimos escritos, especialmente em A corrente subterrânea do materialismo do encontro, Althusser nos dá uma pista de qual seria essa tal filosofia para o marxismo. Nesse importante texto escrito no ano de 1982 – publicado postumamente em 1994 –, Althusser coloca em evidência uma tradição filosófica materialista que, segundo ele, é praticamente ignorada pela história da filosofia, qual seja: a tradição do “[...] materialismo do encontro, portanto, do aleatório e da contingência”. (ALTHUSSER, 2005, p. 9). Em sua entrevista com Navarro, Althusser chegou a afirmar que o materialismo aleatório, ou do encontro, seria o “verdadeiro” materialismo, pois, em sua perspectiva, era o que melhor se adequava ao marxismo. (ALTHUSSER, 1988, p. 25).


Dessa forma, o compromisso de Althusser com a prática teórica tornou-se ainda mais radical. Motivado a pensar para além do seu próprio pensamento, produzido e transformado, Althusser voltou a si mesmo e repensou sobre o que de fato constituiu seu pensamento. Após essa reflexão, conforme ele mesmo descreve, Althusser se converte em um “[...] filósofo materialista quase profissional – não um materialista dialético [...] mas sim materialista aleatório”. (ALTHUSSER, 2002, p. 10, grifo do autor).


Apesar da profundidade das ideias desenvolvidas por Althusser nos textos de sua “última fase”, estas não foram devidamente debatidas naquele período. Sua dramática situação pessoal enfrentada na década de 1980, acabou dificultando a circulação e o debate de suas ideias mais provocativas. Nesse período, a tese do materialismo aleatório, por exemplo, apesar de melhor delineada em textos que foram publicados após a sua morte, já se apresentava em algumas publicações anteriores ao seu falecimento – a exemplo da obra Filosofia y marxismo, publicada em 1988 –. Porém, mesmo assim, a tese do materialismo aleatório acabou não tendo o reconhecimento que merecia, não sendo devidamente debatida enquanto Althusser estava vivo.

REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, Louis: Para un materialismo aleatorio. Arena Libros, Madrid, 2002.

ALTHUSSER, Louis. A corrente subterrânea do materialismo do encontro. Crítica Marxista, Rio de Janeiro, Revan, n.20, 2005, p. 9-48.

ALTHUSSER, Louis; NAVARRO, Fernanda. Filosofía y marxismo. México: Siglo XXI, 1988.

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